O GRITO DA SECA

Consequências da mudança do clima no Nordeste



As projeções de clima, liberadas pelo Quarto Relatório do IPCC (IPCC AR4), têm mostrado cenários de secas e eventos extremos de chuva em grandes áreas do planeta. No Brasil, a região mais vulnerável, do ponto de vista social, à mudança de clima, seria o interior de Nordeste, conhecida como semi-árido, ou simplesmente o “sertão”. Reduções de chuva aparecem na maioria dos modelos globais do IPCC AR4, assim como um aquecimento que pode chegar até 3-4ºC para a segunda metade do século XXI. Isso acarreta reduções de até 15-20% nas vazões do rio São Francisco.

O aquecimento global, que já elevou em cerca de 1,5°C a temperatura do Nordeste, tem acendido sinais de alerta. Previsões climatológicas para décadas à frente estão virando realidade hoje. Oscilações pluviométricas, derretimento precoce de gelo no Ártico, anos cada vez mais quentes.

O que podemos informar é que, se o planeta continuar a aquecer, esse será sim o novo clima do Nordeste. Avalia o climatologista e membro da Academia Brasileira de Ciência, Carlos Nobre.

Já Alexandre Pires, coordenador da Associação Semiárido Brasileiro (ASA), pontua que as secas na região ocorrem em ciclos. "Do ponto de vista histórico, a cada 30 anos temos um grande período de estiagem", disse. Mas o atual período não tem as mesmas características do passado, ele está mais forte, pondera.

A desregulação do sistema de chuvas, no entanto, é preocupante. Segundo o Relatório do Clima do Brasil, produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Para o Inpe, não existem mais padrões de chuva na região nordeste. Por isso, o coordenador da ASA acredita que as cisternas, embora sejam positivas, têm um limite técnico. "Elas armazenam a água da chuva para uma família de cinco pessoas durante oito meses. Se há uma irregularidade e diminuição das chuvas, consequentemente a tecnologia também vai diminuir", pondera.

Essas mudanças no clima do Nordeste no futuro podem ter os seguintes impactos:

• A caatinga pode dar lugar a uma vegetação mais típica de zonas áridas, (Deserto) com predominância de cactáceas. O desmatamento da Amazônia também afetará a região.

• Um aumento de 3ºC ou mais na temperatura média deixaria ainda mais secos os locais que hoje têm maior déficit hídrico no semi-árido.

• A produção agrícola de subsistência de grandes áreas pode se tornar inviável, colocando a própria sobrevivência do homem em risco.

• O alto potencial para evaporação do Nordeste, combinado com o aumento de temperatura, causaria diminuição da água de lagos, açudes e reservatórios rapidamente.

• O semi-árido nordestino ficará vulnerável a chuvas torrenciais e concentradas em curto espaço de tempo, resultando em enchentes e graves impactos sócio-ambientais. Porém, e mais importante, espera-se uma maior frequência de dias secos consecutivos e de ondas de calor decorrente do aumento na frequência de veranicos.

• Com a degradação do solo causando a falência da agricultura e pecuária, aumentará a migração para as cidades costeiras, agravando ainda mais os problemas urbanos.

• Aumento significativo dos núcleos que já se encontram em processo de desertificação.

Consequências da mudança do clima no Nordeste:

As projeções apresentadas no Relatório do Clima do Inpe foram geradas usando modelos climáticos globais e regionais, e o fato de todos os modelos convergirem numa situação de clima mais quente e seco pode fazer com que consideremos essas projeções como tendo um grau de certeza grande. Considerando um modelo em particular (o modelo do Centro Climático britânico - Hadley Centre) e o cenário pessimista, apresenta uma tendência de extensão da deficiência hídrica por praticamente todo o ano para o Nordeste, isto é, tendência a “aridização” da região semi-árida até final do século XXI. Define-se “aridização” como sendo uma situação na qual o déficit hídrico que atualmente apresenta-se no semi-árido durante 6-7 meses do ano seja estendido para todo o ano, consequência de um aumento na temperatura e redução das chuvas. Em resumo, grande parte do semi-árido nordestino, onde a agricultura não irrigada já é atividade marginal, tornar-se-ia ainda mais marginal para a prática da agricultura de subsistência.

Aquecimento global, com a elevação do nível dos oceanos, aumento da intensidade e da frequência das ressacas nos últimos anos, a ocupação irregular da orla e mudanças provocadas pelo homem nos rios que desaguam no mar são apontados, por especialistas em climatologia e fenômenos marinhos, como causas mais prováveis da redução das praias. Uma elevação de 50 cm no nível do Atlântico poderia consumir 100 metros de praia no Norte e no Nordeste. Em Recife, por exemplo, a linha costeira retrocedeu 80 metros de 1915 a 1950, e mais de 25 metros de 1985 e 1995.

Os ambientalistas estão preocupados também com a caatinga, apontada como uma das ações mais urgentes. A caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, abriga uma fauna e uma flora únicas, com muitas espécies endêmicas, ou seja, que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Trata-se de um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com grande parte de sua área tendo já sido bastante modificada pelas condições extremas de clima observadas nos últimos anos, e potencialmente são muito vulneráveis às mudanças climáticas.

O clima mais quente e seco poderia ainda levar a população a migrar para as grandes cidades da região ou para outras regiões, gerando ondas de “refugiados ambientais”, aumentando assim os problemas sociais já existentes nos grandes centros urbanos do Nordeste e do Brasil.

Foto: Evaristo Sá/AFP
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