O GRITO DA SECA

Cronologia das secas



Cronologia das secas - Desde 1583

1583 / 1584 / 1585 - Primeira notícia sobre seca, relatada pelo padre Fernão Cardin, que atravessou o sertão da Bahia em direção a Pernambuco. Relata que houve "uma grande seca e esterilidade na província e que 5 mil índios foram obrigados a fugir do sertão pela fome, socorrendo-se aos brancos". As fazendas de canaviais e mandioca deixaram de produzir.

1606 - Nova seca atinge o Nordeste.

1615 - Seca sem grande repercussão/ efeito.

1652 - Seca atinge o Nordeste.

1692 / 1693 - Uma grande seca atinge o sertão. A peste assola a capitania de Pernambuco. Segundo o historiador Frei Vicente do Salvador, os indígenas, foragidos pelas serras, reuniram-se em numerosos grupos e avançaram sobre as fazendas das ribeiras, destruindo tudo.

1709 / 1710 / 1711 - Grande seca atinge o Nordeste, estendendo-se até a Capitania do Maranhão, espalhando fome entre seus habitantes.

1720 / 1721 - Seca alarmante nas províncias do Ceará e do Rio Grande do Norte.

1723 / 1724 / 1725 / 1726 / 1727 - Grande seca, fazendo dos engenhos verdadeiras ruínas. Irineu Pinto relata que os fiscais da Câmara pediram a El-Rey que mandasse escravos, pois os da região haviam morrido de fome.

1736 / 1737 - Outra seca no nordeste causa prejuízos à região.

1744 / 1745 - Seca provoca morte do gado e fome entre a população. Alguns historiadores afirmam que crianças que já andavam, devido à desnutrição, voltaram a engatinhar.

1748 / 1749 / 1750 / 1751 - Grande seca atinge a região.

1776 / 1777 / 1778 / 1779 / 1780 - Uma das mais agravantes, pela falta de chuva e por coincidir com um surto de varíola, provocando um alto índice de mortalidade. Quase todo o gado ficou perdido na caatinga. A Corte Portuguesa determinou que os flagelados fossem reunidos em povoações nas margens dos rios, repartindo-se entre elas as terras adjacentes.

A luta para uma convivência pacífica com o semi-árido acompanha o povo nordestino desde o descobrimento. Na estiagem de 1778 foi registrada a perda de 7/8 do rebanho bovino do Estado, conforme dados do livro “Barragens no Nordeste do Brasil” do acervo do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

Na grande seca, iniciada em 1776 até 1880, morreu metade dos sertanejos da região castigada.

1782 - Foi realizado um censo para determinar a população de áreas sujeitas a estiagens, cujo resultado apontou 137.688 habitantes.

1790 / 1791 / 1792 / 1793 - Seca transformou homens, mulheres e crianças em pedintes. Foi criada a Pia Sociedade Agrícola, primeira organização de caráter administrativo, cujo objetivo era dar assistência aos flagelados.

1808 / 1809 - Seca parcial atinge Pernambuco, na região do São Francisco, onde 500 morreram por falta de comida.

1824 / 1825 - Aliada à varíola, grande seca gerou muitas mortes na região nordestina. Os campos ficaram esterilizados e a fome chegou até os engenhos de cana-de-açúcar.

1831 - A Regência Trina autorizou a abertura de fontes artesianas profundas, na tentativa de resolver o problema da falta de água.

1833 / 1834 / 1835 - Grande seca atinge Pernambuco.

1844 / 1845 / 1846 - Nessa época inicio-se o registro sistemático das secas. Seca de grande proporção provocou morte do gado e espalhou fome entre os nordestinos. Um saco de farinha de mandioca era trocado por ouro ou prata.

1876 / 1877 / 1878 / 1879 / 1880 - Nesse anos praticamente não choveu. Uma das mais graves secas que atingiram todo o Nordeste. Em Fortaleza, capital da província do Ceará famílias maltrapilhas e famintas iam de porta em porta pedindo água, comida e roupas.

No interior, unidos em grupos, flagelados saqueavam depósitos de mantimentos do governo. Em Juazeiro o padre Cícero se desdobrava para salvar seus fiéis, a seca estava acabando com o povoado em que ele vivia há uns cinco anos.

Sertanejos chegavam acreditando que o governo lhes daria passagens e previsões para migrarem a outras províncias, como a do Amazonas, a migração era vista por muitos como a melhor saída para o problema da seca. A salvação era sair do Ceará.

"A peste e a fome matam mais de quatrocentos por dia", escreveu Rodolfo Teófilo, horrorizado com o que assistia; parado numa esquina, em pouco tempo viu passarem vinte cadáveres. “E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco: e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”. As notícias incomodavam a Corte, o imperador chegou a dizer: “Não restará uma joia da Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome.” Mas uma das promessas demagógicas, por conta da seca.

Milhares sertanejos morreram nas estradas do sertão em direção ao litoral, a grande maioria crianças que não suportavam a distância de uma viagem á pé.

Hoje se calcula que morreram mais de meio milhão de pessoas em consequência das secas de 1877 / 1878 /1879. O engenheiro André Rebouças, abolicionista, negro, respeitado por suas ideias progressistas, calculava em mais de dois milhões as pessoas atingidas pela seca, ainda em novembro de 1877.

Fortaleza, ficou conhecida como capital do desespero. De 21 mil habitantes pelo censo de 1872 passaram a ter 130 mil em 1877.

1888 / 1889 - Grande seca atinge Pernambuco e Paraíba, deixando lavouras destruídas e vilas abandonadas.

1898 / 1899 / 1900 - Outra grande seca atinge somente o Estado de Pernambuco.

1903 / 1904 – Vítimas da seca, milhares de nordestinos abandonam a região. Passou a constar na Lei de Orçamento da República uma parcela destinada às obras contra as secas. Criou-se três comissões para analisar o problema das secas nordestinas.

1908 / 1909 - Seca atinge principalmente o sertão de Pernambuco. Em 1909 foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS).

1910 - Foram instaladas 124 estações pluviométricas no semi-árido nordestino. Até então, haviam sido construídos 2.311 açudes particulares na Paraíba e 1.086 no Rio Grande do Norte.

1914 / 1915 - Apesar do romance de Rachel de Queiroz ter sido escrito apenas em 1930, a história do “O Quinze” retrata, com verossimilhança assombrosa, a seca de 1915.

Seca intensa em toda região semi-árida nordestina. Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina.

Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos.

Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. O governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, onde se espremiam mais de 8 mil pessoas; a falta de condições sanitárias e de comida completou o trágico quadro.

A seca de 1915 deixou marcas profundas, segundo a Inspetoria de Obras Contra a Seca – IOCS , entre 1914 e 1915, 2 milhões de pessoas morreram em consequência da miséria e fome da estiagem. Os sertanejos retirantes passaram a chamar os campos de concentração de “currais” o que etimologicamente parece dar conta do que eram esses espaços.

O termo "flagelado", referindo-se aos retirantes, passa a ser predominantemente utilizado pelos estudiosos e veículos de comunicação.

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› HOLOCAUSTO DA SECA

1919 / 1920 / 1921 - Em conseqüência dos efeitos dessa seca (que teve grandes proporções, sobretudo no sertão pernambucano), cresceu o êxodo rural no Nordeste. A imprensa, a opinião pública e o Congresso Nacional exigiram a atuação do governo. Foi criada, em 1920, a Caixa Especial de Obras de Irrigação de Terras Cultiváveis do Nordeste Brasileiro, mantida com 2% da receita tributária anual da União, além de outros recursos. Mas efetivamente, nada foi feito para amenizar o drama das secas.

1929 / 1930 / 1931 / 1932 - Grande seca no Nordeste. Novamente na seca de 1932, de forma ampliada, o ser humano mostra sua face mais cruel, espalhando campos de concentração pelo estado do Ceará. Milhares perderam suas vidas, a falta de condições sanitárias e de comida completou o trágico quadro.

Segregar os retirantes das populações urbanas foi a solução encontrada pelo governo e elites para que o citadinos não tivessem que conviver com as pessoas de "fisionomia marcada pelo rito da miséria".

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› HOLOCAUSTO DA SECA

1945 - Mais uma seca atinge o Nordeste. Foi criado o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) que passou a desempenhar as tarefas antes atribuídas à Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, criada em 1919. Nesse ano começou a construção de açudes por todo nordeste.

1951 / 1952 / 1953 - Grande seca atinge todo o Nordeste. O DNOCS propôs um trabalho de educação entre os agricultores, com o objetivo de criar núcleos de irrigação.

1966 - Seca atinge parcialmente o Nordeste.

1970 - Grande seca atinge todo o Nordeste, deixando como única alternativa para 1,8 milhões de pessoas o engajamento nas chamadas "frentes de emergência", mantidas pelo governo federal.

A persistência da seca no ano de 1970 teve conseqüências drásticas ao incapacitar a região cearense de se emancipar de certos flagelos sociais provenientes da crise climática. A desnutrição, por exemplo, foi algo tão grave, que um estudo da UNICEF detectou que 69% das crianças eram afetadas pelo nanismo nutricional. Destas crianças que sobreviviam no sertão, de cada 1.000 nascidas vivas, 340 não chegavam a completar um ano de vida (SOARES, 1984).

1979 / 1980 / 1981 / 1982 / 1983 / 1984 - Uma das mais prolongadas e abrangente seca da história do Nordeste. Atingiu toda a região, deixando um rastro de miséria e fome em todos os Estados. No período, não se colheu lavoura nenhuma numa área de quase 1,5 milhões de km2. Só no Ceará foi registrada mais de uma centena de saques, quando legiões de trabalhadores famintos invadiram cidades e arrancaram alimentos à força em feiras-livres ou armazéns.

Segundo dados da Sudene, entre 1979/1984, morreram na região 3,5 milhões de pessoas, a maioria crianças, por fome e enfermidades derivadas da desnutrição. Pesquisa da Unesco apontou que 62% das crianças nordestinas, de 0 a 5 anos, na zona rural, viviam em estado de desnutrição aguda.
Os séculos se passaram e o cenário da seca continua o mesmo.

1991 / 1992 / 1993 - Grande seca atinge todos os estados do Nordeste e parte da região norte de Minas Gerais. Só no nordeste, de acordo com dados da Sudene, um total de 1.857.655 trabalhadores rurais que perderam suas lavouras foram alistados nas chamadas "frentes de emergência". Pernambuco foi o estado que teve o segundo maior número de agricultores alistados nessas frentes, com 334.765 pessoas, perdendo apenas para a Bahia (369 mil trabalhadores alistados).

As perdas de safras foram totais, em todos os Estados Nordestinos. Ao final da seca, grandes reservatórios no interior do nordeste ficaram completamente secos.

1998 / 1999 - No final do mês de abril, vêm agressivamente, mais uma vez, os efeitos de uma nova seca no Nordeste: população faminta promovendo saques a depósitos de alimentos e feiras livres, animais morrendo e lavouras perdidas. Com exceção do Maranhão, todos os outros estados do Nordeste foram atingidos, numa totalidade de cerca de 5 milhões de pessoas afetadas. Esta seca estava prevista há mais de um ano, em decorrência do fenômeno El Niño, mas, como das vezes anteriores, nada foi feito para amenizar os efeitos da catástrofe.

2001 - Praticamente um prolongamento da seca iniciada em 1998 (que se estendeu por 1999 e apenas amenizou-se em 2000). A seca teve uma particularidade em relação às anteriores: ocorreu no momento em que não só o Nordeste, mas todo o Brasil vivia uma crise de energia elétrica sem precedentes em todo a história do País, provocada por falta de investimentos no setor e pela escassez de chuvas. Daí, o nordestino desabafou: "Agora é sem água e sem luz!".

2012 / 2013 / 2014 / 2015 / 2016 / 2017
Conhecida como a "Seca das Secas", que castigou o semiárido brasileiro de 2012 a 2017, em especial o sertão do Nordeste, foi a pior da história já registrada no Brasil, aponta levantamento do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Estima-se um prejuízo na ordem R$ 208 bilhões com a seca. A queda na produção agrícola foi superior a 91% nesse período, os pequenos criadores de gado viram seus rebanhos serem dizimados pela falta de água e alimento, o resultado desse quadro é uma queda de 50% na produção de carne e leite.

Em muitas cidades o sistema de abastecimento de água entrou em colapso, ficando assim o abastecimento sendo feito através de carros pipa.

A região Nordeste entrou no ano de 2018 com o menor volume de água da série histórica armazenada em seus reservatórios: 13%. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a situação é considerada crítica.

A ANA monitora 400 maiores reservatórios no Nordeste. Para se ter uma ideia, em 2012, quando a situação já não era tão boa:
(2012) 66%, caindo nos anos seguintes para 42% (2013), 33% (2014), 27% (2015), 22% (2016) 15% (2017) e 13% (2018).

Fonte: OpenBrasil.org
O Grito da Seca - OpenBrasil.org

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