O GRITO DA SECA

Ações para diminuir o impacto da seca (Conviver com a seca)



O semi-árido brasileiro caracteriza-se, no aspecto sócio-econômico, por milhões de famílias que cultivam a terra, delas ou de terceiros. Para elas, mais da metade do ano é seco e a água tem um valor todo especial. Além disso, as secas são fenômenos naturais periódicos que não podemos combater, mas com os quais podemos conviver.

Vale lembrar, também, que o Brasil assinou a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, comprometendo-se a “atacar as causas profundas da desertificação”, bem como “integrar as estratégias de erradicação da pobreza nos esforços de combate à desertificação e de mitigação dos efeitos da seca”. Partindo dessas reflexões, nosso Programa de Convivência com o Semi-Árido inclui:

• O fortalecimento da agricultura familiar, como eixo central da estratégia de convivência com o semi-árido, em módulos fundiários compatíveis com as condições ambientais. Terminaram por gerar novas pressões, que contribuíram aos processos de desertificação e reforçaram as desigualdades econômicas e sociais.

Por isso, o Programa de Convivência com o Semi-Árido compreende, entre outras medidas

• A descentralização das políticas e dos investimentos, de modo a permitir a interiorização do desenvolvimento, em prol dos municípios do semiárido.

• A priorização de investimentos em infra-estrutura social (saúde, educação, saneamento, habitação, lazer), particularmente nos municípios de pequeno porte.

• Maiores investimentos em infra-estrutura econômica (transporte, comunicação e energia), de modo a permitir o acesso da região aos mercados.

• Estímulos à instalação de unidades de beneficiamento da produção e empreendimentos não agrícolas.

• Ampliação do programa água boa, levando construção de cisterna ao meio rural, afim de reduzir mortalidade infantil causada pela água contaminada dos reservatórios castigado pela estiagem (Foto acima).

CISTERNA - Reservatório d'água para conservar águas pluviais (potável).

Bons resultados
Sociedade nordestina se mobiliza para conviver com a seca

Uma experiência da sociedade civil mostra que é possível enfrentar o difícil clima do semiárido nordestino sem gastar rios de dinheiro. O Nordeste costuma ter a imagem associada à fome, à sede e à pobreza provocadas pela seca. A região abriga o mais populoso semiárido do planeta. São 22 milhões de habitantes, distribuídos em 1.133 municípios, que se espalham por 915 mil quilômetros quadrados.

A ASA criou o PM1C, o Programa Um Milhão de Cisternas que, pouco a pouco, muda a paisagem e a vida do sertanejo, antes fadado a andar até dez quilômetros por dia para conseguir uma lata de água, muitas vezes de má qualidade, para abastecer a família. As cisternas implantadas pela ASA somam hoje mais de 476 mil unidades de 16 mil litros em residências e mais 850 de 52 mil, em escolas que antes dependiam do carro-pipa para ter acesso à água.

De acordo com a ASA, a boa administração da chamada cisterna de placa, que capta água pluvial, garante o consumo doméstico de água fica garantido nos meses de escassez de chuva. De tecnologia simples e barata (a implantação custa R$ 2,4 mil por unidade), os reservatórios provocaram grandes mudanças na vida dos sertanejos.

Sem precisar passar tanto tempo em busca de água, eles puderam se dedicar mais às pequenas plantações que sustentam suas famílias.

Embora ainda não tenha atingido o objetivo traçado de implantar 1 milhão de cisternas, a ASA já começou a executar uma iniciativa complementar: o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), que consiste no uso de tecnologias simples que garantam água para os animais e a lavoura de famílias do sertão.

Neste segundo programa, até o momento, já foram implantadas quase 19 mil unidades de captação de água. São barragens subterrâneas, (diversas pequenas barragens), BAPs (bombas de água) e barreiros-trincheiras (construídos sob o solo). Outras tecnologias, tão simples quanto as necessidades do homem da Caatinga, também vêm sendo implementadas pelo programa, como tanques de pedras e caldeirões, além de cisternas de vários tipos, como a calçadão e a enxurrada. Essas técnicas aproveitam a água da chuva e garantem às famílias água para seus pequenos rebanhos e para o plantio.

Barragem subterrânea
Desenho esquemático do funcionamento da barragem subterrânea.

Beneficiados pelo programa da barragem subterrânea - P1+2 - Programa Uma Terra e Duas Águas

Construção da barragem subterrânea

A barragem subterrânea é uma tecnologia de captação e armazenamento da água de chuva para produção de alimentos. Possui a função de reter a água da chuva que escoa em cima e dentro do solo, por meio de uma parede construída dentro da terra e que se eleva a uma altura de cerca de 50 cm acima da superfície, no sentido contrário à descida das águas. A barragem subterrânea forma uma vazante artificial temporária na qual o terreno permanece úmido por um período de dois a cinco meses após a época chuvosa, permitindo a plantação mesmo em época de estiagem.

Pode ser construída em leito de rio e riacho, córregos e linhas de drenagem. Sua construção é feita escavando-se uma vala no sentido transversal das descidas das águas até a rocha ou camada impermeável. Dentro da vala, estende-se um plástico de polietileno com espessura 200 micra por toda sua extensão, fechando-a em seguida com a terra que foi retirada na sua abertura. O plástico dentro da vala se constitui na parede/septo impermeável. Nessa parede, deve ser feito um sangradouro para eliminar o excedente de água quando ocorrer chuvas torrenciais. As opções de cultivos dependem do interesse econômico e social de cada região e de cada família.

O sucesso da barragem subterrânea depende da locação, da construção dentro dos parâmetros técnicos recomendados, do conhecimento sobre seu funcionamento/manejo, e da apropriação por parte da família. Recomenda-se áreas com solos com profundidade de 1,5 a 4,5 m, com declividade suave, entre 0,4 e 2,0%, que formam ombreiras (extremidades rasas), não salinos e textura arenosa a média.

O custo de uma barragem subterrânea varia de acordo com as condições locais. É uma tecnologia que permite ao agricultor maior sucesso no cultivo de diversas espécies, contribuindo para o desenvolvimento rural sustentável do semiárido brasileiro, por promover melhoria das condições de vida das famílias agricultoras, garantindo renda e segurança alimentar.

Esta solução tecnológica foi desenvolvida pela Embrapa em parceria com outras instituições como a ASA - Articulação Semiárido brasileiro.

Construção de cisternas

Construção da cisterna de placas de 16 mil litros.

Beneficiados pelo P1MC - Programa Um Milhão de Cisternas

Beneficiados pelo P1MC - Programa Um Milhão de Cisternas

A implementação da cisterna de placa de cimento de 16 mil litros. Uma construção de baixo custo, feita de placas de cimento pré-moldadas e construídas ao lado das casas por pessoas da própria comunidade capacitadas nos cursos de pedreiros/as oferecidos pelo P1MC. A cisterna tem o formato cilíndrico, é coberta e fica semienterrada. O seu funcionamento prevê a captação de água da chuva aproveitando o telhado da casa, que escoa a água através de calhas. Trata-se de uma tecnologia simples, adaptada à região semiárida e de fácil replicação.

Faz parte da estratégia de mobilização das famílias que elas apresentem uma contrapartida para a construção. Isto possibilita uma contribuição delas com as ações do Programa e fortalece a organização comunitária, uma vez que uma experiência bastante comum são os mutirões que envolve várias famílias na construção de cada cisterna.

A tecnologia

Cada cisterna tem capacidade para armazenar 16 mil litros de água, volume suficiente para abastecer uma família de até seis pessoas, no período de estiagem que pode chegar a oito meses. O seu funcionamento prevê a captação de água da chuva que cai no telhado da casa e escoa para a cisterna através das calhas.

Em todas as cisternas são instaladas bombas manuais para retirada da água, placas de identificação, calhas, tampas, coadores, telas de proteção e cadeados. E todas as tecnologias são georreferenciadas, ou seja, são coletadas as coordenadas geográficas de longitude e latitude que permitem a localização da mesma.

Assista esse exemplo de sistema de convivência com a seca.
Sistema transforma fazenda em oásis no sertão de Pernambuco:



A Fazenda Caroá, no município de Afogados da Ingazeira, em pleno sertão de Pernambuco, é um exemplo de convivência com o clima do semi-árido. No local existe água em boa quantidade para os rebanhos e as pessoas.

Vídeo: Globo Rural / Seven connect
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org /
Desenho esquemático do funcionamento da barragem subterrânea (fonte): FERREIRA et al., 2011.

O Grito da Seca - OpenBrasil.org

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