O Grito da Seca: História das secas

História das secas

A seca, ao contrário do que possa imaginar, "vêm de datas antiquíssimo na nossa cronologia histórica". A primeira que se tem notícia data de 1583.

A seca atinge, e muito, a pecuária, a agricultura e toda cadeia produtiva no sertão.


Abaixo, secas do polígono da seca:
No século XVI - Foram registradas (03) três secas:

Seca - 1583 / 1584 / 1585

No século XVII - Foram registradas (05) cinco secas:

Seca - 1606
Seca - 1615
Seca - 1652
Seca - 1692 / 1693

No século XVIII - O fenômeno se repetiu em número bem maior, num total de (27) vinte e sete:

Seca - 1709 / 1710 / 1711
Seca - 1720 / 1721
Seca - 1723 / 1724 / 1725 / 1726 / 1727
Seca - 1736 / 1737
Seca - 1744 / 1745
Seca - 1748 / 1749 / 1750 / 1751
Seca - 1777 / 1778 / 1779 / 1780
Seca - 1782
Seca - 1790 / 1791 / 1792 / 1793

No século XIX - O fenômeno da seca se repetiu (19) dezenove vezes. Esse século foi marcado pela mais devastadora seca de todas, a de 1877 a 1879. Hoje calcula-se que morreram mais de meio milhão de pessoas em consequência das secas de 1877 / 1878 /1879.

Seca - 1808 / 1809
Seca - 1824 / 1825
Seca - 1831
Seca - 1833 / 1834 / 1835
Seca - 1844 / 1845 / 1846
Seca - 1877 / 1878 / 1879
Seca - 1888 / 1889
Seca - 1898 / 1899 / 1900

No século XX - A seca se repetiu, (27) vinte e sete vezes. Tendo a seca 1915, como uma das mais crués de todas. Também nesse século a maior sequência de anos com período seco (1979 a 1984), um total de 6 anos.

Seca - 1903 / 1904
Seca - 1908 / 1909
Seca - 1910
Seca - 1914 / 1915
Seca - 1919 / 1920 / 1921
Seca - 1932
Seca - 1945
Seca - 1951 / 1953
Seca - 1966
Seca - 1970
Seca - 1979 / 1980 / 1981 / 1982 / 1983 / 1984
Seca - 1991 / 1992 / 1993
Seca - 1998 / 1999

No século XXI - Até os dias atuais, já são (8) secas, tendo a série histórica de 5 anos consecutivos, entre 2012 a 2016.

Seca - 2001
Seca - 2007 / 2008 - ( Norte do estado de Minas Gerais )*
Seca - 2012 / 2013 / 2014 / 2015 / 2016

Veja em CRONOLOGIA DAS SECAS, as seca da Amazônia 2005 / 2010, e 2014 no sudeste, em especial o estado de São Paulo.

Segundo D. José Adelino Dantas, "foi no século XVIII, que se verificou a primeira longa e calamitosa seca do Nordeste, abrangendo cinco anos consecutivos, de 1723 a 1727.

Em 1877 ocorreu a mais devastadora de todas as secas, a economia ficou arrasada, as doenças e a fome dizimaram o rebanho que sustentava milhares de famílias.

O problema da seca no Sertão Nordestino é mais remoto do que parece. Pesquisas confirmam: a situação climática do Sertão é inalterável.

Fundamental, portanto, a intervenção humana para amenizar seus efeitos. Não podemos combater, mas com os quais podemos conviver.

A grande seca
Milhares de retirantes vindos do sertão, ocupam a estação de Iguatu em 1877.

Seca - 1877 / 1878 / 1879 - Nesse três anos praticamente não choveu. Uma das mais graves secas que atingiram todo o Nordeste. Em Fortaleza, capital da província do Ceará famílias maltrapilhas e famintas iam de porta em porta pedindo água, comida e roupas.

No interior, unidos em grupos, flagelados saqueavam depósitos de mantimentos do governo. Em Juazeiro o padre Cícero se desdobrava para salvar seus fiéis, a seca estava acabando com o povoado em que ele vivia há uns cinco anos.

Sertanejos chegavam acreditando que o governo lhes daria passagens e previsões para migrarem a outras províncias, como a do Amazonas, a migração era vista por muitos como a melhor saída para o problema da seca. A salvação era sair do Ceará.

"A peste e a fome matam mais de quatrocentos por dia", escreveu Rodolfo Teófilo, horrorizado com o que assistia; parado numa esquina, em pouco tempo viu passarem vinte cadáveres. “E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco: e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”. As notícias incomodavam a Corte, o imperador chegou a dizer: “Não restará uma joia da Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome.” Mas uma das promessas demagógicas, por conta da seca.

Milhares sertanejos morreram nas estradas do sertão em direção ao litoral, a grande maioria crianças que não suportavam a distância de uma viagem á pé.

Hoje se calcula que morreram mais de meio milhão de pessoas em consequência das secas de 1877 / 1878 /1879. O engenheiro André Rebouças, abolicionista, negro, respeitado por suas ideias progressistas, calculava em mais de dois milhões as pessoas atingidas pela seca, ainda em novembro de 1877.

Fortaleza, ficou conhecida como capital do desespero. De 21 mil habitantes pelo censo de 1872 passaram a ter 130 mil em 1877.

Foto da criança: Uma das vítimas da Grande Seca, Ceará, 1877. Foto de Joaquim Antônio Correia, “Vítimas da Grande Seca”, Albúmen - Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

O Quinze / 1932 / Campos de concentração
Campo de concentração de sertanejos.

Apesar do romance de Rachel de Queiroz ter sido escrito apenas em 1930, a história do “O Quinze” retrata, com verossimilhança assombrosa, a seca de 1915.

Seca intensa em toda região semi-árida nordestina. Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina. Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos.

Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. O governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

Vítimas da seca - Crianças e adultos ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.

A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, onde se espremiam mais de 8 mil pessoas; a falta de condições sanitárias e de comida completou o trágico quadro.

A seca de 1915 deixou marcas profundas, segundo a Inspetoria de Obras Contra a Seca – IOCS , entre 1914 e 1915, 2 milhões de pessoas morreram em consequência da miséria e fome da estiagem. Os sertanejos retirantes passaram a chamar os campos de concentração de “currais” o que etimologicamente parece dar conta do que eram esses espaços. O termo "flagelado", referindo-se aos retirantes, passa a ser predominantemente utilizado pelos estudiosos e veículos de comunicação. Segregar os retirantes das populações urbanas foi a solução encontrada pelo governo e elites para que o citadinos não tivessem que conviver com as pessoas de "fisionomia marcada pelo rito da miséria".

Os campos de concentração não apresentaram resultados satisfatórios, estava claro que o método havia falhado, porém, 17 anos depois da tragédia do 15, novamente o Governo do Estado se utiliza dos "currais" campos de concentração da seca de 1932, para conter as populações de flagelados que invadiam as cidades.

Em Fortaleza, além da "reativação" do campo de concentração do Alagadiço, foi criado o Pirambu, que ficou conhecido como Campo do Urubu e as cidades de Cariús, Ipu, Quixadá, Quixeramobim e Senador Pompeu também tiveram os campos instalados e ali morreram milhares de pessoas.

Na avaliação do Presidente de Estado na época, o engenheiro e militar Benjamim Liberato Barroso: "Ainda parece ouvirmos em tumulto queixume de um povo bom a debater-se de agonia de misérias que não vão bem longe. Sofreu com coragem inimitável os horrores da seca sem cometer desatinos; morreu de fome sem roubar nem saquear".

(trecho) Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.

Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas

Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.

Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.

Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.

O sofrimento das famílias durante essa estiagem é retratado por Rachel de Queiroz no seu romance “O quinze”, um drama instigante impondo situações dolorosas em meio à desolação provocada pela seca.
Acesse: Holocausto da Seca - A história que o Brasil esqueceu.
HOLOCAUSTO DA SECA
Seca - 2012 a 2016
A série histórica de 2012 a 2016, é considerada a maior seca de todos os tempos. A diferença central é que hoje há muito mais infra-estrutura que no século XIX. Hoje a região do nordeste conta com uma grande quantidade de açudes, barragens, adutoras, cisternas e poços tubulares que amenizam a situação diante de um seca histórica como essa que vivemos. As atividades econômicas são as que mais sofrem com a seca, como pecuária e agricultura. O abastecimento humano também fica muito prejudicado, em alguns municípios o abastecimento vem sendo feito através de carros pipa.
Acesse também
CRONOLOGIA DAS SECAS
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